quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Viagens, amigos e parceiros... e muita discussão sobre identidade e cultura...

Esta semana resolvi escrever aqui de novo. Tenho muitas histórias pra contar, mas o tempo é exíguo, então, devagarinho vou postando no momento em que me apetece tal ato.

Nessa semana estou fazendo algo sigiloso que ainda não posso contar, mas conheci pessoas excelentes que posso falar delas. Mas ainda não devo. Na hora certa conto.

Todavia quero comentar aqui uma discussão super interessante que fizemos numa noite com rodada de pizza. A pergunta terrível: Lu, o que vc acha da cultura e da identidade surda?

Fiquei empolgada porque AMO discutir e ainda mais quando a pergunta se direciona a mim com tanta facilidade: o que acho? Noooooóooo...

Acho um monte de coisas, mas queria pontuar algumas que falei naquela noite:

1) Acho que os surdos constituem identidade como todos nós, marcados por uma série de questões que permeiam sua vida. As marcas são de ordens diversas: culturais, género, classe social e no caso da pessoa surda, a surdez se constitui numa marca.

2) Considero a surdez uma marca muito forte porque o atravessa numa rede de conceitos e concepções vividas numa sociedade que hoje opta por construir um discurso de acessibilidade total para qualquer sujeito que vive e habita nela. A surdez cria nesse sujeito que se constitui com essa marca, possibilidades de estratégias de sobrevivência das mais variadas. A Língua de Sinais é a maior dessas condições de possibilidades.

3) Considero assim uma marca cultural nesse sujeito que se constitui. Mas envolto de outras marcas, outras possibilidades. Por isso, o ser, estar sendo surdo, pode ocorrer de formas diversas com identidades diversas. Imagine que dentro da própria comunidade surda, posso ter o surdo oralizado e o surdo sinalizado. As relações de poder que envolvem esses dois surdos (sem contar com outros surdos, claro)... Mas que marcam profundamente o espaço na comunidade, dos próprios.

Na nossa invenção atual do "surdo perfeito" ele é TOTALMENTE sinalizado, literalmente MUDO, sabe escrever português bem (porque aprendeu como segunda língua numa "realidade paralela possivelmente"). O surdo oralizado é a representação terrível do passado de opressão da Libras e por isso, ou ele FECHA a boca, ou tá marcado na própria comunidade.

O português ainda representa o poder. Sabê-lo para muitos se torna obsessão, ou motivo total de protesto. Mas sem ele, como habitar nos espaços acadêmicos (outro lugar de poder) para garantir saberes específicos?

Optar por acreditar nessas condições de possibilidades como verdades únicas no mundo atual, é acreditar que há um mundo ficcional onde TODOS conversam com surdos, TODOS sabem Libras onde TODOS respeitam o espaço surdo. A via não pode ser de mão única. Ainda não temos essa realidade. Ainda precisamos uns dos outros. Surdos e ouvintes. A via é de mão dupla!!!!

Encerramos a noite rindo e debatemos essas questões (o que me deu um tremendo prazer) e pudemos saborear da pizza e da conversa.