sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Antropologia- pensar as questões culturais

Hoje estivemos eu e meu marido na casa de uma amiga aqui em Corumbá, Profa. Nilza Cristina que é professora daqui do campus e seu marido,prof. da Universidade Federal de Tocantis, Reginaldo, antropólogo e formado em História, com certeza um encontro produtivo, daqueles encontros que não são planejados, mas acontecem e nos passam.

Quero compartilhar umas discussões que tivemos lá. Ele me apresentou algo que no fundo sempre busquei, mas que nunca tive tido oportunidade: discutir questões surdas culturais com antropólogos. Nossa, de fato é uma delícia poder discutir nesse sentido. É muito mais fácil e leve conversar sobre nossos paradigmas tão diferenciados sobre surdos e surdez com um antropólogo do que com pedagogos. Eu sou pedagoga, mas como são mais fechados e complicados de compreender coisas básicas como surdo como sujeito que constitui uma comunidade, marcas culturais e uma organização ímpar. A surdez marca essas organizações. Marca fortemente. Não é a única, como disse, mas marca.

Sugiro a leitura do texto que está neste endereço eletrônico:
http://www.n-a-u.org/magnani1-2007.html

Boa sugestão antropológica. Acho que é uma possibilidade de estudos futuros. Que delícia!!!!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Vestibular em Libras- Universidade Federal da Grande Dourados - 2010/

A Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) é a terceira universidade do país a traduzir a prova do Vestibular para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), no formato vídeo. Todos os candidatos surdos tiveram acesso ao filme individualmente, contendo as orientações do processo seletivo e todas as questões das provas traduzidas.

O material foi produzido pelo Centro de Seleção da UFGD e pelas professoras da área Lucyenne Vieira e Raquel Quiles, ambas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e Janete Nantes e Marilda Bruno, essas da própria instituição. Elas se reuniram para a elaboração e produção do filme que depois ficará disponível no site da UFGD.
A professora Lucyenne Vieira, que detém a Libras como língua materna, fez toda a revisão da prova. E o filme contou ainda com o apoio técnico dos servidores Alan e Rômulo Junior.

Seis candidatos surdos fizeram a prova em sala especial, disposta de um computador para cada aluno que serviu de exibição do filme. Além disso, uma fiscal intérprete acompanhou a realização da prova desses vestibulandos que assistiram ao vídeo e responderam suas questões no caderno de respostas.
Segundo a coordenadora do Centro de Seleção da UFGD, professora Giselle Real, este ano a UFGD inovou fazendo com que os candidatos ganhassem em tempo. “Além disso, a universidade é pólo da região Centro Oeste no oferecimento do curso de Letras com habilitação em Libras, então era necessário inovar”, enfatizou.

Outros 23 portadores de necessidades, entre eles deficientes visuais e físicos, e pessoas em situações especiais, como lactantes e disléxicos, fizeram o Vestibular 2010 da UFGD. Eles foram ensalados na Unidade 1 (antigo Ceud) e fiscalizados por colaboradores médicos.

Veja a reportagem em http://www.ufgd. edu.br/noticias/ ufgd-e-a- terceira- do-pais-a- traduzir- a-prova-do- vestibular- na-libras

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Viagens, amigos e parceiros... e muita discussão sobre identidade e cultura...

Esta semana resolvi escrever aqui de novo. Tenho muitas histórias pra contar, mas o tempo é exíguo, então, devagarinho vou postando no momento em que me apetece tal ato.

Nessa semana estou fazendo algo sigiloso que ainda não posso contar, mas conheci pessoas excelentes que posso falar delas. Mas ainda não devo. Na hora certa conto.

Todavia quero comentar aqui uma discussão super interessante que fizemos numa noite com rodada de pizza. A pergunta terrível: Lu, o que vc acha da cultura e da identidade surda?

Fiquei empolgada porque AMO discutir e ainda mais quando a pergunta se direciona a mim com tanta facilidade: o que acho? Noooooóooo...

Acho um monte de coisas, mas queria pontuar algumas que falei naquela noite:

1) Acho que os surdos constituem identidade como todos nós, marcados por uma série de questões que permeiam sua vida. As marcas são de ordens diversas: culturais, género, classe social e no caso da pessoa surda, a surdez se constitui numa marca.

2) Considero a surdez uma marca muito forte porque o atravessa numa rede de conceitos e concepções vividas numa sociedade que hoje opta por construir um discurso de acessibilidade total para qualquer sujeito que vive e habita nela. A surdez cria nesse sujeito que se constitui com essa marca, possibilidades de estratégias de sobrevivência das mais variadas. A Língua de Sinais é a maior dessas condições de possibilidades.

3) Considero assim uma marca cultural nesse sujeito que se constitui. Mas envolto de outras marcas, outras possibilidades. Por isso, o ser, estar sendo surdo, pode ocorrer de formas diversas com identidades diversas. Imagine que dentro da própria comunidade surda, posso ter o surdo oralizado e o surdo sinalizado. As relações de poder que envolvem esses dois surdos (sem contar com outros surdos, claro)... Mas que marcam profundamente o espaço na comunidade, dos próprios.

Na nossa invenção atual do "surdo perfeito" ele é TOTALMENTE sinalizado, literalmente MUDO, sabe escrever português bem (porque aprendeu como segunda língua numa "realidade paralela possivelmente"). O surdo oralizado é a representação terrível do passado de opressão da Libras e por isso, ou ele FECHA a boca, ou tá marcado na própria comunidade.

O português ainda representa o poder. Sabê-lo para muitos se torna obsessão, ou motivo total de protesto. Mas sem ele, como habitar nos espaços acadêmicos (outro lugar de poder) para garantir saberes específicos?

Optar por acreditar nessas condições de possibilidades como verdades únicas no mundo atual, é acreditar que há um mundo ficcional onde TODOS conversam com surdos, TODOS sabem Libras onde TODOS respeitam o espaço surdo. A via não pode ser de mão única. Ainda não temos essa realidade. Ainda precisamos uns dos outros. Surdos e ouvintes. A via é de mão dupla!!!!

Encerramos a noite rindo e debatemos essas questões (o que me deu um tremendo prazer) e pudemos saborear da pizza e da conversa.